Segunda 10 Dezembro 2018

depoimentos

Paul Lieberman

Paul LiebermanQuando eu penso no Nico o que vem primeiro a minha lembrança é ele contando uma piada um dia na piscina do Carlinhos Bala, la no Recreio, onde a gente costumava se encontrar para fazer churrascos nos dias de sol, e as vezes ensaiar ao ar livre tambem. Infelizmente eu não posso repetir a piada aqui, mas devo confessar que conto essa piada até hoje - funciona em portugues ou ingles. A piada era comprida e envolvia varios personagens em varias cenas, e o Nico contou com tesão, incorporando cada papel - com direito a efeitos sonoros e tudo - e fez um show que deixou todos nos gargalhando durante um tempão e viviamos nos referindo a essa piada depois.

Comecei a tocar com Nico logo depois da minha chegada no Rio de Janeiro em 1985. Cruzei com o Steve Slagle que voltou pros EUA depois da gravação de “High Life” e o Nico me chamou para fazer parte do som dele. Passamos a fazer os sons do Luizinho Avelar, Ricardo Silveira, e o Nico. Mudava o lider e o repertorio, mas quando era o som de um deles naquela época, éramos sempre nós quatro. Nunca esqueço uma vez que houve uma diferença de opinião sobre algum detalhe e o Nico afirmou “Essa é minha fucking gig é vai ser assim!” Fico rindo só de lembrar.

Seria dificil escolher um trabalho mais marcante com o Nico, porque toda vez que se tocava com ele era um sonho, uma delicia, uma viajem, um desafio, uma aventura e um banho de musicalidade e suingue. O trabalho de mais alto perfil que fizemos juntos foi o show dele no Free Jazz Festival de 1988. Era Nico, Luizinho, Ricardo eu e o Jurim Moreira na bateria. Ele tinha cada musica original linda, mas uma delas em particular me tocou profundamente. Ele tinha feito pro pai falecido dele e a musica me emocionou muito, até que o critico da Folha de São Paulo parece ter sentido, e escreveu: “...‘Toni’, uma balada feita na medida para o lirismo do sax de Lieberman”.

Paul LiebermanOutro trabalho bem interessante foi uma big band que o Nico organizou usando o naipe que fazia todas as gravações importantes naquela epoca dourada no Rio. Acho que o Serginho Trombone fez os arranjos dos metais. A gente tocava músicas do Miles Davis com Marcus Miller, do grupo Weather Report, e outras coisas do momento assim e se apresentava na boite People. Era dificil juntar todos esses profissionais para gigs e infelizmente esse lance durou pouco.

Outra memoria marcante que veio na minha cabeça foi uma noite que fui pro estudio so para fazer companhia ao Nico. Acho que ele estava colocando o baixo em cima de alguma coisa ja gravada pelo Luizinho e o Paulo Braga. Vendo o Nico gravar de primeira, totalmente relax e com sorriso na cara, com uma precisão, um balanço brasileirissimo, um bom gosto ferrado, e uma substancia profunda, fiquei realmente maravilhado, e até assustado com a ideia de tocar com ele - esse gigante da musica instrumental brasileira, de tanto respeito que eu tinha e tenho para ele e para todos os outros grandes musicos que criaram essa musica que todos nos amamos e que eles marcaram tão profundamente. Sou muito grato.

Na minha opinião, a melhor contribuição que o Nico deixou para a musica brasileira foi de rejeitar padrões diferentes para musicos no Brasil versus no exterior, e de mostrar que um musico pode ser simultaneamente brasileirissimo E classe-mundial em termos de tecnica, conhecimento, e profissionalismo.

Curriculum

Paul LibermanNo inicio da carreira do saxofonista e flautista Paul Lieberman, durante uma sessão no estudio de Mickey Hart, Gil Evans comentou ao Airto Moreira: “tudo que ele toca soa certo" e David Sanborn respondeu a uma performance em Nova Iorque com um beijo dado de surpresa. O novo e aclamado CD do Paul apareceu em várias listas dos “Melhores de 2011” e destaca uma seleção de músicos lendários num olhar sobre a música brasileira e o Jazz americano como filhos gêmeos da Mãe Africa separados ao nascer, criados em partes distantes do mundo e agora reunidos: No contrabaixo Rufus Reid e Nilson Matta, na bateria Duduka da Fonseca, Tim Horner, e o co-fundador da banda Allman Brothers--Jaimoe, com Joel Martin no piano e Eugene Friesen no cello.

Segundo os críticos: “Lieberman, é um músico de alma em qualquer instrumento, entregando um conteúdo emocional profundo...mostra o seu domínio instrumental e também se revela um compositor impressionante” nessa gravação de estréia. Com “alta musicalidade mostrada com emoção nua” os “originais brilhantes” e arranjos “fascinantes” “encantam” e “celebram a vida ao máximo” nessa “coleção encantadora”. “Abençoado com dois grupos de acompanhantes craques” o CD “dulcíssimo” “brilha” com “musica de alma” o tempo todo “combina técnica, inteligência, experiência, emocões, e a atitude de se arriscar, que empurra o músico alem do ordinário ou do lugar comum.” Com “uma das melhores versões de uma música dos Beatles por um jazzista, uma batida que flutua em cada faixa...uma alegria de viver de grupo penetrante” e uma original que “me arrepiou” “Ibeji é uma realização da pesada...e mostra, de uma maneira brilhante, o que esses patrimonios musicais tem em comum.”

Atividades recentes de Paul: um quarteto de saxofones co-fundado em parceria com Gary Smulyan, Marty Ehrlich, e Jason Robinson, turnês com a Banda Gregg Allman e Jaimoe’s Jasssz Band, performances múltiplas como solista com a Afro-Latin Jazz Orchestra do Arturo O’Farrill, a criação dos sopros e percussão para performances mundiais do Young@Heart Chorus. Paul também foi nomeado como Artista da Rico, membro da redação do jornal “Analytical Approaches to World Music”, Flautista de Latin Jazz do Ano, e Disco de Brazilian Jazz do Ano.

Depois de se formar na universidade Yale, o Paul foi convidado simultaneamente por Buddy Rich e por Airto Moreira e Flora Purim, e virou o unico gringo no grupo brasileiro que tambem incluia o Sergio Dias na guitarra, Marcos Silva no piano, e Sergio Brandão no baixo, e viajou os EUA com eles durante dois anos, tocando em grandes clubes, teatros, e festivais, para plateias de até 30.000 e estreiando na Lincoln Center de Nova Iorque.

Convidado por o Sergio Dias, ele se mudou para o Rio de Janeiro em 1985 aonde morou por quatro anos, e se tornou primeira opção nos estudios de gravação e nos palcos de show, participando em gravações de mais de 50 albums da MPB e trabalhando como arranjador e produtor para CBS, Warner, e outros selos. Assimilou-se brasileiro tão profundamente que as pessoas achavam-no de brasileiro nato.

Paul já fez shows e/ou gravou com Pat Metheny, David Sanborn, Don Grusin, Jaco Pastorius, The Allman Brothers Band, Mickey Hart, Taj Mahal, Rufus Reid, Jaki Byard, David “Fathead” Newman, Bernard Purdy, Lew Soloff, Paquito D’Rivera, Ronnie Foster, Claudio Roditi, Dick Oatts, Conrad Herwig, Brian Lynch, Wayne Bergeron, Arturo O’Farrill, Dave Samuels, Bobby Sanabria, The Temptations, David Byrne, The Gregg Allman Band, Jaimoe's Jasssz Band, e a Sinfonica de Springfield, e tambem com astros brasileiros como Simone, Chico Buarque, Djavan, Milton Nascimento, Toninho Horta, Alcione, Joao Bosco, Leny Andrade, Miucha, e Roberto Carlos, e com o creme dos artistas instrumentais brasileiras, incluindo Hermeto Pascoal, Cesar Camargo Mariano, e muitos outros.

Ele tambem já se apresentou na Austrália, Bélgica, Canadá, Inglaterra, Alemanha, Havaí, Noruega, Polônia, Suiça, e Gales, e passou quatro anos como professor de jazz na Universidade de Massachusetts, aonde ele completou seu mestrado em Composição e Arranjo de Jazz."